Takuhatsu (do sânscrito pindapata) é o ato de esmolar praticado por monásticos de antigas religiões indianas, incluindo o budismo e o jainismo.
Taku (托) significa “segurando” ou “pedindo”.
Hatsu (鉢) pode ser traduzido como “tigela de esmolas”.
Na época de Xaquiamuni Buda, os monges e as monjas saíam às ruas pela manhã para peregrinar pelas casas de leigos, em grupo ou individualmente. Algumas vezes se estabeleciam em locais públicos, sempre carregando suas tigelas e aceitando todas as ofertas para garantir sua única refeição diária.
Durante o takuhatsu, os monges zen usam chapéus de bambu, perneiras brancas e sandálias de palha. Carregam uma tigela (ou bolsa) ao redor do pescoço para coletar as ofertas, normalmente de arroz cru ou dinheiro.
Ao receber as refeições, os monges doam ensinamentos, praticando a humildade, a modéstia. Simultaneamente, permitem que os doadores ganhem mérito.
A tigela de esmolar, símbolo do vazio (de autoexistência), representa a interconexão de tudo e de todos. A tigela vazia simboliza também nossa vida individual, nossa existência, que recebe os ingredientes de que necessitamos.
Quando praticam em grupo, os monges formam uma fila e entoam “Hôô” (Darma) para anunciar sua presença. Ao receber uma oferta, recitam o verso de takuhatsu:
“Méritos infinitos na Paramita (Perfeição) de Dana (doação, generosidade). A doação, o que é doado e quem recebe não existem por si só. E todos são de igual valia.”
Com a criação dos mosteiros, as refeições passaram a ser viabilizadas a partir de doações regulares de alimentos. Os mosteiros medievais chineses e japoneses recebiam alimentos produzidos por agricultores camponeses.
Em alguns locais, os próprios monges cultivavam legumes e hortaliças durante a prática de trabalho comunitário conhecida como samu (fushin samu 作 務).
Mesmo com a oferta de alimentos, por meio de doações ou cultivo nos próprios mosteiros, o takuhatsu continua a ser praticado até hoje.
(Texto de Maria Paula Myobun | Foto do arquivo pessoal de Monja Coen)
Durante o treinamento no Japão, monja Coen Roshi praticou o takuhatsu enfrentando as baixas temperaturas do inverno. Acompanhe aqui o relato da monja na íntegra:
“Ao receber essas ofertas, sempre senti que deveria usar esse dinheiro com responsabilidade. Dinheiro que vinha de longe, da fome e da sede, das necessidades e do esforço de reconstruir um país. Da força e desconfiança de um povo.
Ao voltar ao mosteiro, reuníamos as esmolas, que se transformariam em alimento para as monjas. Hoje em dia, os mosteiros não vivem mais apenas das doações colhidas nas ruas, mas temos de fazer essa prática para saber como viveram os monges e as monjas do passado. (…)
Saíamos na neve. Eu queria muito andar de sandálias de palha na neve. Minhas mãos estavam queimadas pelo frio. Meus pés estavam bem. (…) Usávamos capas de chuva e de neve, de borracha grossa. A fila era longa, mais de trinta monásticos. Eu ficava no final, antes dos dois últimos monges que vigiavam todos nós e agradeciam as ofertas recebidas.
A fila nunca parava. Não era possível levar a tigela de laca negra, pois a mão ficava congelada e podia deixar a tigela cair. O sino de metal tinha de ser muito bem embrulhado em tecido grosso para não colar na pele. Assim, preparada, eu caminhava gritando alto: “Hôôô!”.
O frio que antecede uma nevada é cortante. Ao gritar, eu colocava uma das mãos bem próximo da boca e soprava para aquecê-la. Doía muito. De tempos em tempos, escondia a mão dentro da capa. Lembrava-me de Napoleão. Logo, o monge à minha frente se virava, como se tivesse olhos nas costas, e me mandava tirar a mão de dentro da capa. Era medonho. Até o momento em que olhei para as mãos dos outros monges, lá na fila da frente. Quando recebíamos uma esmola, tínhamos de levantar a mão para que o último da fila parasse ali e orasse em agradecimento. As mãos se levantavam tão vermelhas e tão feridas quanto as minhas. Enchendo-me de coragem e de brio, resolvi não esconder mais a mão. Deu além do limite suportável e, então, mágica! Como se todo o meu ser houvesse mudado de marcha, entrado em outro ritmo, a dor deixou de ser importante. Apenas estava lá. E havia tanto a ser apreciado: o silêncio da neve, a fila de roupas pretas e chapéus marrons. Éramos um só corpo, uma sanga, uma comunidade.
A sabedoria da transformação – reflexões e experiências
Monja Coen Roshi