Amor e Compaixão
Na escada rolante, um olhar doce e a ternura de um gesto simples, através do toque singelo das mãos que se entrelaçam. O jovem casal sorri. Seus gestos e movimentos revelam o que todos nós reconhecemos como amor puro.
Meu dia fica melhor, por testemunhar o movimento, a atitude, o olhar pleno de sentimento. Cumprimento quem passa e sorrio para quem cruzo. Contagiada pelo bem querer.
De mãos em prece, frente ao altar, voltados para Meca, para Jesus, para Buda, para a Torah, invocando e agradecendo ao sagrado em suas múltiplas faces e manifestações, milhões de pessoas se conectam com o amor maior.
Junto a Orixás e todas as forças da natureza, nas aldeias e nas matas – no Xamanismo, na Umbanda e no Candomblé, milhões de pessoas se unem, se identificam ao uno.
O encontro com o dulcíssimo, na comunhão da vida, também contagia e expande a mente de amor incondicional e supremo.
Há uma forma muito antiga e moderna de ser, que podemos chamar de Caminho do Despertar. Aquele ou aquela que desperta vive o amar, percebe que cada forma de vida depende das outras formas de vida e que cada um de nós é o todo manifesto.
Reconhece-se em cada criatura e percebe, ao mesmo tempo, a sua individualidade.
Praticar o Caminho do Despertar é reconhecer que sabemos muito pouco, ou quase nada e ao mesmo tempo que cada um, cada uma de nós é o todo manifesto.
Sem o todo, sem tudo que há, foi e será, nossas vidas não seriam possíveis. Essa expansão de consciência nos leva à sabedoria ao cuidado atento, capaz de transformar a realidade através da compaixão ilimitada.
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Amar o amor.
Amar por amar apenas, sem expectativa e sem esperança.
Além do eu e do outro, quando um e todos estão inclusos na capacidade de querer bem.
Na presença, sempre presente e sagrada, amar é querer, é estar, ser, cuidar e agradecer o que vem e o que vai no assim como é.
O assim como é não é fixo, não é permanente, flui, algumas vezes como um riacho manso e outras como cascatas e cataratas violentas e fortes.
Amar precisa ser experimentado, treinado, estimulado, ao entrar em contato com o mais íntimo de si, que é o mais íntimo do todo e de tudo.
Podemos nos capacitar para o amor, desenvolver, formar e fortalecer o sentir, o reconhecer e a capacidade de acolher em nós todos os seres, todas as formas de vida.
Expandir a mente, o coração de forma que pulse forte e firme, suave e macio na ternura sem fim de nos sabermos unidos e dependentes uns dos outros – a interdependência para a qual o monge vietnamita Thich Naht Hahn sugeria uma nova palavra – interser.
Nada existe por si só.
Somos a trama da vida.
Interligados estamos a todas as formas de vida.
Nada nem ninguém existe por si só, independente ou separado.
Influenciamos o todo e somos influenciados por tudo.
Cada gesto, palavra e pensamento de cada um de nós transforma a realidade.
Será que conseguimos ser a transformação que queremos no mundo, como afirmava Mahatma Gandhi?
Será que temos um sonho como Martim Luther King?
Será que podemos abandonar tudo como Madre Teresa de Calcutá?
Poderá a Terra ser nossa testemunha como mencionou Buda no momento do seu despertar?
Somos, fomos e seremos capazes de amar por amar apenas, sem esperar nada em troca?
Ou nosso amor depende da gratidão, do retorno de quem recebe nosso afeto?
Somos capazes do amor incondicional ou amamos apenas sob certas condições?
Quais as condições que você impõe para amar?
Precisa ser correspondido?
A pessoa, o ser, a deidade que você ama deve se comportar de acordo com os seus valores e princípios ou você é capaz de acolher todos os seres assim como são?
Mesmo sem ser compreendido é capaz de compreender?
Mesmo sem ser amado é capaz de amar?
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Amor tem a ver com o êxtase místico da alegria incomparável de perceber que tudo que foi é e será está presente na grande irmandade da vida.
Irmã lua e irmão sol, irmã terra, irmão céu e irmão mar.
Um só corpo.
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Conecte-se com o amor que habita em você.
Conecte-se com alguma experiência que provocou ou provoca ternura sem fim, doçura, carinho, respeito.
Sinta esse amor e o ofereça a quem estiver por perto, conhecidos e desconhecidos.
Estenda a amorosidade para todos, para os maus e até mesmo para as pessoas boas.
Inclua tudo e todos.
Do Brasil e do mundo…
Seres humanos, animais, insetos, plantas, peixes, ervas, ar, águas, céus, terra e tudo que é, foi e será.
Continue querendo bem, agradecendo, todo o sistema solar. Inclua tudo e todos nessa ternura infinita.
Toda a Via Láctea e tantas quantas outras vias houver.
Infinitamente, sem começo e sem fim.
Amar, querer bem, acolher, aquecer, refrescar, cuidar.
Depois dessa expansão ilimitada, voltar devagar, do tudo nada infinito, à Via Láctea, ao Sistema Solar, inclua toda a Terra e todas as formas de vida, reconheça seu território, país, cidade, lugar, sua casa, a sala, a mesa, a cadeira e inclua você também nesse amor.
Ame a si. Quem não é capaz de se querer bem terá dificuldade em amar de verdade.
Compartilhe a vida, pensamentos, ideias, sonhos e coisas materiais: alimentos, casa, medicamentos.
Sem fora nem dentro o amor permeia o eu e o outro, a luz das estrelas e as ondas do mar.
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O que é o amor? Seria cupido, um anjinho de asas, com arco e flecha tocando os corações humanos? Seria apenas o amor de namorados ou cupido pode tocar todos os corações para o amor maior?
Como tocar os corações para que possamos amar incondicionalmente?
O que bloqueia nossa capacidade de querer bem, de cuidar, respeitar e transformar a realidade?
Seria a ignorância? Talvez a ganância ou a raiva?
Seria o medo ou a falta de contato com a verdade assim como é, criando barreiras e separações, muralhas e fronteiras, quando o que realmente existe é um todo interativo e interdependente?
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Durante minha formação monástica no Japão, certo dia, recebemos em nosso mosteiro feminino de Nagoya um grupo de pessoas acompanhadas por um monge do sul da Ásia. Na porta de saída do mosteiro o monge parou e antes de se despedir me perguntou em inglês como estavam se desenvolvendo nossos estudos sobre “love and compassion” – amor e compaixão.
Fiquei surpresa.
Nunca ouvira tal expressão durante meus doze anos de treinamento monástico no Japão.
A palavra amor não é usada ou banalizada.
Nossos estudos e práticas focavam nas palavras sabedoria e compaixão – os alicerces dos ensinamentos de Buda.
Nosso fundador, do século XIII, escreveu sobre a força de palavras amorosas.
Mestre Zen Eihei Dogen viveu de 1200 a 1253. Visitou a China onde encontrou um grande mestre zen, sob o qual teve sua experiência mística do despertar e voltou ao Japão para difundir os ensinamentos de Zazen – sentar-se em Zen, em meditação profunda.
Construiu templos e mosteiros, formou muitos discípulos e escreveu vários textos, nos quais apresentava sua compreensão singular dos ensinamentos antigos.
Entre seus textos e ensinamentos a expressão “palavras amorosas” é encontrada.
Mas essa amorosidade é resultado do despertar da mente iluminada, da mente clara, capaz de observar todos os seres, observar em profundidade e compreender a natureza de cada criatura.
O despertar é o desabrochar em nós da compaixão amorosa. É nos reconhecer em cada ser e indo além da empatia se manifesta em uma ação, um gesto, um pensamento e uma palavra gentil. Logo, é desta compaixão, do despertar da mente, que surgem palavras de amor, de acolhida, de respeito.
Podemos também treinar de fora para dentro.
Escolher palavras gentis para nos comunicar, nos respeitar e a tudo mais.
Nos monastérios Zen há um aviso na entrada da cozinha, para que usemos palavras respeitosas ao falar sobre os alimentos, sobre os instrumentos usados para cozinhar e manter sempre a gentileza ao servir uns aos outros.
Quem fala amorosamente e quem ouve palavras de amor, se alegram e, como a pequenina flecha de cupido, as palavras amorosas tocam o mais íntimo e mais profundo de cada um e de todos nós.
Palavras amorosas criam relacionamentos de harmonia e respeito, de ternura e inclusão.
Palavras amorosas são a força principal dos seres celestiais e benfazejos.
A fala, o olhar, o sentimento de amor amacia a fúria e a insensatez, pois carrega em si sabedoria e compaixão – inclusão amorosa.
Como uma prece antiga, o texto que descreve o poder das palavras de ternura, hoje faz parte de uma liturgia tradicional da ordem religiosa Soto Zen Shu, a qual pertenço.
Foram essas reflexões que surgiram, silenciosamente, naquele momento em que o monge visitante me perguntou sobre love and compassion.
A mente funciona com incrível rapidez.
Foram alguns instantes apenas e os pensamentos, memórias, sentimentos foram surgindo
Amor está presente na forma de ser, pensar, agir, falar.
O texto antigo descrevia a importância da fala amorosa e correta, elevando todos os seres à mente desperta.
O que significa mente desperta?
O que é o despertar da mente humana senão a capacidade de reconhecer que estamos todos ligados uns aos outros?
A palavra amor estava lá, em um texto clássico do Zen Budismo japonês, mas não era apenas uma palavra e sim uma maneira de ser e estar no mundo.
A fala amorosa surge da experiência de amar e é a causa do sentimento e das ações que surgem a partir do amor.
Nosso mosteiro feminino fica na cidade de Nagoya, que pertence à Província de Aichi.
Ai quer dizer amor e chi é sabedoria.
A província da sabedoria do amor.
Foi uma das mais bombardeadas cidades durante a segunda guerra mundial e se reergueu com dignidade, fazendo de Nagoya uma cidade moderna com grandes avenidas.
Durante a guerra, as monjas saiam para pedir esmolas nas ruas. Aliás o fazemos até os dias de hoje, quando em treinamento no mosteiro, para ter a humildade de receber esmolas e de trazer conforto e palavras amorosas a todos que se aproximem.
Naquela época do pós-guerra, as jovens monjas caminhavam pelas ruas levando um pequeno sino em uma das mãos e a tigela de comer na outra.
Entretanto não são só alimentos que recebíamos e ainda recebemos, mas também pequenas moedas.
Caminhamos em fila indiana e entoando “hooooo”, que significa Darma, ou Lei Verdadeira, ou a Grande Verdade.
Quando recebemos uma oferta agradecemos entoando um ensinamento de Buda e confirmando que quem dá, o que é dado e quem recebe interdependem. Um não existe sem o outro. Se não houver quem receber, se não houver o que dar e se a pessoa não doar, a doação não existiria.
Por isso dizemos que são vazios.
Os três são vazios de uma auto-identidade independente e separada.
Nesse dia, lá pelo ano de 1945, um grupo de cinco monjas jovens, por volta de 15 anos de idade, pararam em frente a uma loja fechada e começaram a tocar seus sininhos e invocar por doações.
O comerciante se irritou e jogou, do segundo andar, um balde de água fria sobre as jovens.
Aquela que se tornaria mais tarde a Superiora do Mosteiro Feminino disse às outras:
“Façamos a prece do agradecimento.”
“Mas, ele nos jogou água fria e suja” – comentaram as outras.
“Isso é tudo que ele tem para nos dar”, falou a futura superiora do mosteiro, e completou: “Vamos agradecer.”
Assim as jovens monjas oraram em agradecimento pelo ato rude de uma pessoa triste, magoada, desesperada.
Era tudo que essa pessoa tinha a dar.
Amar é compreender e acolher, sem rancor, raiva, tristeza, mágoa ou qualquer pensamento prejudicial.
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Há outra história, também contada por nossa superiora.
Uma jovem, filha de família abastada, durante a guerra, decidiu morar com os/as catadoras de papel.
Habitava um casebre pequenino.
Todas as manhãs, ela se despedia dos catadores e das catadores sorrindo e desejando um bom dia.
Quando voltavam, ela estava lá, novamente sorrindo e os recebendo com um pouco de chá de arroz.
Depois de alguns meses a jovem ficou tuberculosa e acabou morrendo sozinha no meio de uma noite fria, no pequeno casebre.
Recusara-se a voltar para a casa de seus pais e de receber tratamento em hospitais de ponta. Seu lugar era entre eles, os pobres, os catadores de papel.
Quando foram retirar seus objetos do casebre encontraram um pequenino caderno embaixo do travesseiro. Nele, havia apenas uma frase:
“Não se esqueça de sorrir hoje.”
Mesmo nas situações mais trágicas e sofridas, das guerras, da falta de habitações, de escolas, de hospitais, onde todos dependem uns dos outros, sem alimentos adequados, sem remédios, passando fome e frio, será que mesmo nessas circunstâncias conseguimos sorrir uns para os outros?
Um olhar acolhedor, um afago, a disponibilidade de servir, de cuidar, de se identificar com os que sofrem e compartilhar suas vidas – será que não é essa a forma mais profunda de amar?
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Meus pais se separaram quando eu era pequena, talvez tivesse quatro anos de idade. Minha mãe nos contava que ao se separar dele – que se apaixonara por sua secretária – ela havia disto:
“Eu posso perder o marido, mas nossas duas filhas não perderão o pai.”
Ele concordou e sempre esteve presente em nosso crescimento e educação.
Ensinou-me a correr, andar de bicicleta, nadar, andar a cavalo, guiar um carro. Era carinhoso e firme.
Mas foi só depois dos oitenta ou quase noventa anos de idade que ao me telefonar à noite, todas as noites, apenas para me desejar boa noite, me surpreendeu quando, pela primeira vez. me disse:
“Eu te amo filhinha.”
Será que precisamos falar de amor ou demonstrar através de ações e pensamentos?
Será que ambos se completam?
Ou será que apenas ao final da vida somos capazes de manifestar, com simplicidade, o nosso cuidado amoroso?
Não esperem até seus últimos dias para manifestar sua ternura. Declarem em palavras, gestos e pensamentos o amor que faz pulsar seu coração.
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No Japão, onde os casais e os pais não costumam falar – como é comum nos Estados Unidos – a frase “eu te amo”, durante um jantar, em um templo budista, o assunto veio à baila.
O marido, um monge zen, explicou:
“Não preciso dizer a minha esposa que a amo. São meus cuidados, minhas ações, meus gestos. Ela é para mim o ar que respiro. Não fico dizendo ao ar “eu te amo.””
Uma declaração de amor profunda, singela, simples, sutil.
Mesmo sem falar, suas ações e atitudes eram a manifestação do cuidado amoroso.
Nós seres humanos não sobrevivemos sem respirar por mais que alguns minutos.
Podemos ficar sem comer ou beber por alguns dias, até mesmo semanas ou meses. Mas, não podemos ficar sem respirar. Dizer que a esposa era para ele como o ar, era uma declaração profunda, como se considerasse ela ser sua própria vida.
Gestos, atitudes, acolhida, inclusão, ternura, um olhar que vê, reconhece, identifica é amar, mesmo sem falar em amor.
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Minha superiora do Mosteiro de Nagoya esteve na Índia e foi auxiliar as irmãs que trabalharam com Madre Teresa de Calcutá. Ela usava os tradicionais hábitos japoneses, de panos longos, mangas de mais de dois metros, saias pregueadas e assim vestida lavava e limpava os/as pacientes. O calor de quase 50 graus a fazia pingar de suor. Ao ver o seu estado, uma das monjas religiosas católicas sugeriu que ela parasse por alguns minutos o atendimento, saísse um pouco, desse uma volta, bebesse água e voltasse mais tarde.
Havia tantas pessoas necessitando de atenção. Ela relutou em sair, mas foi gentilmente conduzida para fora do local.
Enxugando a testa no braço ela viu uma pequenina porta e a abriu.
A porta dava para a rua, onde uma multidão de pedintes aguardava por doações.
Era por essa portinha que as religiosas compartilhavam o que recebiam com os mais pobres.
Sem compreender o que falavam, entendeu aquele gesto de tantas mãos estendidas, aqueles olhos aflitos, necessitando ajuda, alimento, roupas, remédios, ternura.
Não tinha nada. Estava sem sua bolsa, sem nada além de si mesma. Nesse momento colocou as mãos palma com palma e cumprimentou a todos, olhando em tantos olhos quanto seus pequeninos olhos podiam alcançar e falou a única palavra que sabia: “Namastê”.
Para sua surpresa todos colocaram as mãos palma com palma e responderam “Namastê”, em uníssono,
como se houvessem ensaiado e, com olhos doces, sorriram.
Namastê significa “o sagrado em mim cumprimenta o sagrado em você”.
Era um grupo de pessoas carentes, desprezadas socialmente, os invisíveis também chamados de intocáveis.
A gratidão por terem sido reconhecidos como seres sagrados, foi um gesto de amor, de doação, de reconhecimento e respeito à dignidade da vida humana.
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Você reconhece o sagrado quando surge disfarçado de ninguém?
Ou só quando está limpo, banhado, perfumado e vestido em trajes parecidos com os seus?
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Reconheça que somos semelhantes, irmanados com o vento e as montanhas.
Nós, seres humanos, pertencemos à mesma espécie biológica – a família humana.
Reconheça nossos irmãos e irmãs da mesma espécie e os de espécies diferentes sem os quais nossa vida não seria.
O impacto do gesto simples e verdadeiro da monja japonesa, com roupas tão diferentes das freiras católicas ou dos saris indianos, os cumprimentando com respeito e ternura foi um evento raro, doce, agradável.
Quantas vezes já haviam sido expulsos, escorraçados de tantos locais. Agora, aquela estrangeira os reconhecia semelhantes, os saudava como seres humanos respeitáveis e honrados.
O gesto, olhar, a acolhida, o afeto e a palavra adequada geram amor e alegram corações.
O que dar, compartilhar, quando nossas mãos estão vazias?
Um gesto de amor, um olhar de reconhecimento e inclusão, as mãos unidas em humilde acolhida e os sorrisos banharam as ruas da cidade. Até os ratinhos que corriam ficaram alguns segundos parados, como se tudo cessasse e pudessem celebrar um amor maior do que valores sem valor de riqueza e poder.
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Contam os textos sagrados budistas que, certo dia, Xaquiamuni Buda caminhava pelas estreitas ruas de Varanasi, na Índia. Em sua direção vinha um dos intocáveis – pessoas consideradas fora das castas, os excluídos, cuja sombra não poderia tocar a sombra de alguém de qualquer casta, pois a penalidade seria a morte.
O trabalho desse homem era limpar as latrinas e ele carregava os resíduos que retirara de algumas casas.
Ao ver Buda se aproximando ficou apavorado e caiu, tropeçou e toda a sujeira se espalhou sobre ele e no solo.
Buda sorrindo se aproximou, estendeu a mão.
Temendo repreensão, com olhos aflitos se arrastava tentando se afastar. Mas, Buda se aproximou mais e mais, abaixou-se e o ajudou a se levantar.
Seria verdade o ocorrido? Teria aquele ser enlouquecido? Buda sorriu e o levantou.
Não havia mais ninguém na rua.
Sem testemunhas que os condenassem, ele sorriu e agradeceu.
Foi para sua casa, banhou-se e saiu à procura de quem o reconheceu humano. Seguiu Buda por anos, estudou, meditou e se tornou um discípulo devoto e bondoso.
Ou seja, o ser que desperta – um Buda – é aquele/aquela que acolhe a todos e reconhece todos os seres como semelhantes.
Além das diferenças sociais, das discriminações preconceituosas, é capaz de ver o ser o sagrado em cada criatura.
Não será esse o amor verdadeiro?
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Outra história da época de Xaquiamuni Buda – cerca de 2.600 anos atrás:
Buda caminhava sozinho e chegara a um vilarejo conhecido, para esmolar.
Surpresa: ruas vazias, silenciosas.
O que teria acontecido? Onde estariam todos habitantes daquele local que antes era tão cheio de vida e movimento?
Caminhou até chegar à casa de uma família conhecida e bateu à porta.
Demoraram a responder.
Finalmente abriram uma frestinha e o dono da casa puxou Buda bruscamente para dentro:
“Entre logo, há um assassino solto nas ruas.”
Buda indagou sobre esse assassino, quem era, por que matava e por que todos o temiam?
O dono da casa contou que era um homem muito mal, matava as pessoas e cortava um de seus dedos e pendurava no pescoço. Já tinha 99 dedos podres pendurados e dizia que iria completar a centena.
Ao saber que ele chegara no vilarejo, todos se esconderam.
Buda disse:
“Ah! Agradeço seus cuidados e compreendo o seu medo. Entretanto sou um renunciante e preciso continuar minha jornada.”
“Por favor, Mestre, não vá. Ele o matará.”
“Talvez sim, talvez não.”
Abriu o portão e saiu a caminhar lentamente, conscientemente, respirando e expirando devagar.
Era uma meditação silenciosa e tranquila.
Sentia o chão em que pisava, respirava atentamente e apreciava a jornada.
Céu azul, nuvens brancas, pássaros voando e cantando, flores desabrochando… quando ouviu passos atrás de si e uma voz de comando:
“Pare! Estou mandando. Pare!”
Buda não parou, continuou caminhando em plena atenção e respirando conscientemente.
O homem correu furioso e parando bem em frente a Buda gritou:“Você não ouviu eu dizer para você parar?”
Buda em voz suave respondeu:
“Há muito eu já parei. Você é que ainda não parou.”
Surpreso por encontrar alguém que não o temesse e falasse de forma tão enigmática foi seguindo ao seu lado e conversando.
Aos poucos contou como fora abusado na infância e se comprometera a matar cem pessoas como vingança.
O ser humano não era bom, mereciam morrer.
Buda o ouviu com ternura compassiva e o homem acabou chorando por se sentir compreendido e se arrependeu de seus erros e faltas.
O passado deixara marcas e muitas pessoas o queriam matar. Mesmo tendo sido acolhido na comunidade dos praticantes de Buda, certa ocasião ele foi reconhecido e atacado pelos que queriam vingança, justiça. Deixaram-no à beira da estrada, quase morto.
Buda foi chamado e pediu aos outros monges que o ajudassem a o carregar para dentro da floresta.
Foram muitos dias e muitas noites durante as quais Buda esteve ao seu lado, orando e cuidando do ferido.
Alguns achavam que ele estava no fim, que não sobreviveria, mal respirava, seria melhor se Buda o deixasse morrer e o abençoasse com as preces dadas aos moribundos.
Buda não o abandonou.
Cuidou amorosamente, limpou suas feridas, trocou as ataduras, trouxe alimentos e água, orou e meditou silenciosamente ao seu lado até que melhorasse.
O antigo assassino vingativo, sobreviveu e se tornou um monge bondoso e compassivo.
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Amor é confiar e acolher.
Amor é criar condições para arrependimento e transformação.
Amor é pacientemente curar.
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Há textos do budismo clássico onde o amor compassivo é estimulado de forma gentil e suave.
Um desses textos antigos reconta o encontro entre Buda e um religioso devoto de Brahma – a deidade suprema. Esse religioso indagou se, após a morte, ele iria estar com Brahma.
Gentilmente Buda explicou que, para estar com Brahma ele deveria praticar quatro qualidades principais da mente superior, também conhecidas como as quatro mentes incomensuráveis, pois essa prática faria aumentar a potência da mente superior.
As quatro qualidades principais são: amor, compaixão, contentamento e equanimidade.
Estão interligadas, entrelaçadas, influenciando uma a outra e elevando a mente iluminada.
Para desenvolver a capacidade de amar é necessário observar em profundidade, reconhecer cada criatura como um aspecto da natureza sagrada e perceber as necessidades verdadeiras de cada ser, em cada momento e situação.
Não somos iguais, mas a mente da equanimidade é aquela que percebe a importância de cada vida, sem julgar e catalogar como superior ou inferior, mas todas interligadas, interconectadas e dignas.
Cada forma de vida com suas características e seu significado no emaranhado da teia da vida-morte.
Não há melhor ou pior.
Ser capaz de respeitar e reconhecer a Natureza Buda, a sagrada natureza da vida em sua pluralidade de manifestações, é despertar para o amor verdadeiro, pleno de compaixão, de alegria de viver sem comparar e sim, cuidar.
Se você tiver a intenção e conseguir proporcionar alegria, bem-estar, contentamento ao maior número de seres, será considerada uma pessoa que despertou.
Devemos oferecer aquilo que é benéfico para quem oferecemos e não o que seria bom para nós.
Meditar, aprofundar a consciência de si e expandir para acolher todos os seres com amor, compaixão, alegria e equanimidade é o caminho superior.
Por isso a importância de cessar os estados alterados da consciência, encontrar a tranquilidade, reconhecer os apegos e aversões e não se deixar levar.
É necessário investigar em profundidade, praticar a observação de longo alcance, observação de sabedoria e compaixão, para compreender e acolher, até mesmo os insultos, os baldes de água fria, sem retribuir com raiva, ódio, rancor, vingança.
Pelo contrário, querer o bem mesmo daqueles que não nos compreendem, trabalhar para que todos possam despertar e constituir uma cultura de paz, de justiça e de cura da terra e de todos os seres vivos é o caminho do amor verdadeiro e profundo – virtude dos seres humanos.
Tarefa difícil?
Amar é difícil?
Basta iniciar o processo de compreender e querer bem. Não apenas pessoas parecidas com você, mas todas as pessoas.
Emitir amor e ternura, compaixão e alegria, reconhecimento e equidade em todas as direções.
O amor alimenta o amar.
Amar alimenta o amor, por isso é incomensurável – é uma prática que se auto=sustenta, auto alimenta. Não se desgasta. Quanto mais estimulamos nossa capacidade de amar, mais esta se estende e amplia.
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Quando iniciei práticas meditativas, costumava me consultar semanalmente com a monja Charlotte Joko Beck, uma das orientadoras do Zen Center of Los Angeles, na Califórnia.
Certa manhã, eu era a última da fila de pessoas que esperavam as orientações da mestra.
Havia muita gente antes de mim e as entrevistas eram individuais, algumas demoravam muito.
De repente pensei: “Ela vai se cansar e não vai ter mais nenhum ensinamento para me passar.”
Poucos instantes depois, sozinha na sala de espera, notei que aquele pensamento era absurdo.
O Darma, a Lei Verdadeira, os ensinamentos, o cuidado amoroso não se desgasta jamais.
Sempre há suficiente para quem procura.
A sabedoria e a compaixão dos mestres e mestras não se desgasta com o uso, pelo contrário, aumenta e se alastra.
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Há meditações específicas para emitir amor para o Norte, para o Sul, para o Leste, para o Oeste, para o Nordeste e o Noroeste, para o Sudeste e o Sudoeste, para cima e para baixo.
Você precisa se tornar um átomo de ternura e amor.
Algumas vezes iniciamos ao nos lembrar de um momento de carinho de alguma pessoa querida. Pode ter sido na infância, ou no mesmo dia.
Poderia ser um bichinho, um brinquedo, uma situação em que sentimos ternura.
Entramos em contato com o amor e deixamos que esse amor preencha todo nosso ser.
Expandimos o afeto para incluir pessoas próximas fisicamente.
Aquela pessoa ao seu lado, o outro no fim da fila, aquela de saia curta e a outra de saia comprida.
Sentindo o amor e a doçura de amar podemos expandir e incluir pessoas distantes, conhecidas e desconhecidas, vivas ou mortas, amigas ou inimigas.
Será que há inimigos?
Será que as pessoas com quem temos dificuldade em nos relacionar são seres iluminados, disfarçados, a nos apontar o Caminho?
Continue expandindo o amor, sem pressa, inspirando e expirando calmamente até que estejam todos em nosso sagrado coração: todo o planeta, todo o sistema solar, todo o universo.
Expanda sua capacidade de compreender e querer bem. Depois, vá retornando do absoluto para o sistema solar, o planeta Terra, a América do Sul, o Brasil, o estado em que você se encontra, a cidade, a rua, a casa, a sala, a cadeira e você mesma.
Tudo e todos incluídos no grande amor, no seu sagrado coração onde todos cabem.
Tudo e todos são o grande coração, a grande mente de amor e compaixão.
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Que todos os seres possam acessar a completude e o amor incomensurável, capaz de crescer através do amar, cuidar, reconhecer, compreender e criar causas e condições para o bem, o contentamento e a equidade.
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Há muito a ser feito, há muito a ser transformado.
Ainda sentimos raiva, rancor, ofendemos outras pessoas, países, situações.
Ofendemos à nós mesmos e à toda vida.
Há guerras no mundo, não apenas no Leste Europeu, mas também na África e em vários outros países.
Guerras de mísseis e bombas.
Guerras de abusos, fome, miséria.
Há muita violência e incompreensão.
Fechados, presos por nossas percepções limitadas, pensamos estar separados de tudo e de todos.
Acreditamos falsamente que precisamos vencer.
O que é vencer?
O poder maior é manso e tranquilo.
Entretanto, sem perceber a grandeza que habita na bondade compassiva, ainda chutamos, roubamos, matamos, enganamos, mentimos, traímos.
Que lamentável!
Temos a capacidade da empatia, mas nos identificamos apenas com pessoas e grupos parecidos conosco, com roupas, valores, palavras, gestos semelhantes aos nossos.
E os outros se tornam outros, que não nos importam, que não incluímos em nosso afeto e compaixão.
São erros da falta de educação, falta de compreensão dos que ainda não despertaram. Devem ser apiedados.
Ainda estamos distantes do amor verdadeiro, abrangente, aberto, acolhedor, que não reclama nem resmunga, mas age para o bem.
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Há um relato antigo, no Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, sobre um monge que fora maltratado, insultado e que até mesmo levara algumas pauladas.
Ele sorria aos agressores e dizia:
“Um dia vocês se tornarão Budas.”
Há muito o monge já havia despertado e não se sentia insultado. Sabia quem era e nada o abalava. Seu propósito de vida era facilitar, de todos, o despertar.
Até mesmo acolhia as dores dos abusos e as recebia sorrindo, pois sabia que um dia os abusadores compreenderiam seu erro e despertariam.
Não pense que isso é exemplo para você se aquietar e receber abusos, insultos sem reclamar ou se afastar.
Muitas mulheres morrem assim.
O amor que bate e assopra só causa infelicidade e o perigo do crime.
Raiva também contagia e brigas podem matar o amor e os corpos.
Quem mata morre com quem morreu.
Sua vida deixa de ser como era: prisão ou fuga constante.
Não há nada pelo qual matar e ou morrer.
Amar é libertar. Não é prender, não é acorrentar.
É saber que cada dia podemos escolher o caminho da harmonia e do bem fazer.
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Buda significa alguém que desperta, que vê a realidade assim como é, que tem a capacidade de amar e fazer o bem a todos, mesmo aos que não o compreendem.
Pelo contrário, procura meios hábeis para que todos possam despertar e desenvolver o amor verdadeiro.
O amor nos preenche e nos liberta.
Ficamos leves e saudáveis.
Fazer o bem, faz bem a quem o faz.
Amar faz o amor crescer e se espalhar.
Amar a verdade, amar o investigar a vida e o sentido que podemos dar à nossa existência.
Quem ama, cuida, quem cuida ama.
Ao cuidar de um bichinho, de uma planta, de outro ser humano acabamos nos apaixonando.
Quando nos observamos em profundidade através das práticas meditativas reconhecemos nossos aspectos benéficos e reconhecemos nosso lado sombra.
Quando somos capazes de nos acolher, nos reconhecer e escolher as respostas que damos ao mundo, somos capazes de gostar de nós. De todos nós.
Sem a capacidade de amar a si mesmo, como amar outros seres e a vida?
Lembre-se, cada uma de nós, cada um de nós é a manifestação da sacralidade da vida.
Trate-se com respeito, com dignidade.
Saiba que o que você faz, mesmo quando pensa que ninguém está vendo, está sendo visto por você.
Se você viu, o mundo sabe.
E fazemos o bem, não porque há câmeras e agentes de segurança.
Fazemos o bem porque despertamos, porque sabemos que somos o todo manifesto, que cada minuto é sagrado e que uma vida plena de amor é uma vida feliz.
Contentamento, satisfação, fala correta, pensamento correto, meio de vida correto, observação correta, esforço correto e meditação correta são o caminho da libertação.
Ser liberto é estar pleno e são.
São de santidade, de sanidade, de cuidar e amar sem restrições, mas com capacidade de educar, exigir seriedade e acessibilidade – que todos sejam incluídos do seu, meu, nosso amor verdadeiro.
Que todos possam ser felizes.
Que todos possam despertar para o amor maior.
Quando fazemos o bem temos uma descarga do hormônio chamado de ocitocina.
Quando somos éticos temos uma descarga de ocitocina.
Quando sorrimos e falamos palavras amorosa sentimos a ocitocina nos enchendo de ternura e amor.
Pode ser apenas uma reação química, mas para que ela ocorra precisamos fazer o bem, querer o bem de todos os seres.
O amor provoca o amar.
Podemos nos viciar em ocitocina…
Ao olhar para um raio de sol e nos maravilharmos com a existência.
Ao meditar em profundidade e nos reconhecermos em toda parte.
Ao cuidar com respeito e dignidade de todos os seres.
O retorno é sempre grandioso quando nos entregamos, sem expectativa de retorno, a cuidar.
Quem ama cuida.
Quem cuida acaba amando.
Por onde começar?
Pelo gesto, pelo olhar, pela palavra, pela atitude física e mental de acolher, reconhecer e agir.
Mas, lembrem-se, tudo começa na mente.
De que mente estamos falando?
Falo da mente Buda, a mente desperta, a mente que se percebe presente desde a menor partícula até no maior espaço.
Está na aranha e na sua teia, no escorpião e no seu veneno – reconhecendo cada ser assim como é, não nos tornamos apenas pessoas boas e afetuosas, mas verdadeiramente adequadas, sabendo a condição de cada forma de vida, de cada ser humano em suas diferences fases e faces, para com sabedoria e compaixão realmente fazer o bem.
Não o que é bem para você, no seu padrão de vida e de suas necessidades, mas ser capaz de – mesmo que por alguns instantes – se identificar e adivinhar a necessidade verdadeira de cada criatura.
Tornar-se.
Para tanto precisa abandonar a ideia de quem você é.
Abrir-se, jogar-se no desconhecido e redescobrir a alegria de viver.
Ocitocina.
Surge ao amanhecer e ao anoitecer, ao olhar as estrelas no céu e o raio de sol na calçada, surge ao amamentar, ao compartilhar a vida, ao comungar do grande banquete dos alimentos suficientes a todos. Surge ao ver o bebê que acaba de nascer, surge no sorriso do olhar de quem encontramos na jornada, aparece quando encontramos o sagrado nas pessoas, animais, plantas, pedras, árvores, água, sal, cana de açúcar e se refaz e se alimenta das coisas simples do dia a dia. Está em toda parte, mas é invisível a quem não despertou.
O amar não pode ser forçado, obrigado.
Pois é livre e solto.
Leve e feliz.
Durante os longos retiros Zen, pessoas que se entregam à prática do silêncio e da percepção profunda adentram o que chamamos de Samadhi –– um estado de grande paz, tranquilidade plena, identidade com tudo e todos.
Também chamado de Nirvana ou Nehan, quando as dualidades são transcendidas e estamos além do apego e da aversão.
Não é um estado de euforia, de vitória.
É um estado de profunda tranquilidade.
O ultra atleta brasileiro Daniel de Oliveira, depois de vinte dias em uma prova internacional que correspondia a vinte ironman seguidos me relatou o seguinte:
“Durante a prova tive momentos de raiva e alegria, de competição com os outros participantes, memórias de infância e inúmeros sentimentos foram passando por mim e eu por eles.
Quer durante a natação, quer pedalando, quer correndo. Depois tudo foi se acalmando, comecei a apreciar o esforço dos outros competidores – hoje somos grandes amigos.
O mais interessante foi que ao cruzar a linha de chegada eu estava em grande paz. Pessoas gritavam, aplaudiam e eu sentia apenas uma imensa tranquilidade. Dentro de mim, o silêncio.”
A isso chamamos samadhi, de nirvana, despertar, mente Buda.
Pode ser acessado através de processos de meditação profunda ou por situações onde superamos a nós mesmos, aos nossos medos e aversões, resultado, algumas vezes, de atividades físicas contínuas e extremas.
Sem desistir por causa da dor ou do desconforto.
Usar a mente e a nossa capacidade de resiliência para acessar a presença pura.
Nada extra.
Sem excesso e sem falta, o Caminho é livre, já diziam os antigos sábios Zen.
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Vida-morte é de suprema importância.
Tempo rapidamente se esvai e oportunidade se perde.
Cada um de nós deve se esforçar por despertar
Cuidado! Não desperdice esta vida
Poema entoado ao final do último período de Zazen nos mosteiros Zen…
Acorde, desperte, aprecie sua vida…
A oportunidade não é de ter mais poder, mas de poder amar melhor e se libertar da falsa percepção de que estamos separados e isolados uns dos outros.
Você consegue separar a vida da morte ou a morte da vida?
Você acha que o dia pode existir sem a noite, ou a noite sem que haja o dia?
Sem preferências, o caminho é livre e leve.
Ao encontrar uma ação, aja.
Esteja presente, absolutamente presente e consciente da atitude, do gesto, da palavra e da ação adequada que beneficie a si e aos outros.
Ocitocina – o hormônio do amor, da caridade, do fazer o bem, liberado em relações amorosas, ações éticas, atividades físicas, no parto, na amamentação, nos gestos, pensamentos e atividades de ternura, alegria, contentamento, bem-estar.
Vamos produzir ocitocina para o bem de todos os seres?
Se for o bem de todos os seres será o seu bem, o meu bem, o nosso bem maior.
Vamos aprimorar nossa capacidade de amar até nos tornarmos puro amor?
É possível.
Podemos reverter o aquecimento global, as violências, os abusos, as guerras, a poluição ambiental e emocional, as relações tóxicas e os alimentos tóxicos.
Cada um, cada uma de nós é responsável pelo mundo em que estamos vivendo.
Sem correr atrás do poder. Sem medo de perder ou angústia por ganhar. Sendo apenas e cuidando com excelência da nossa capacidade de reconhecer estarmos todos entrelaçados na trama da existência.
Seja a transformação que você quer no mundo, dizia Mahatma Gandhi.
Vamos transformar a realidade através de nos tornarmos células vivas de amor incondicional.
Ame a si, criatura sagrada, capaz de fazer escolhas adequadas que incluem você e tudo que há, houve e haverá.
Tranquilidade sem agressividade e os portais se abrem de par em par.
Mãos em prece
Monja Coen