Todo carma prejudicial
Alguma vez cometido por mim
Desde tempos imemoriáveis
Devido a minha
Ganância, raiva e ignorância
Sem limites
Nascido de meu corpo, boca e mente
Agora, de tudo, eu me arrependo
O poema do arrependimento, usado atualmente pela tradição Sôtô Shû, pode ser traduzido como está acima. Primeiro temos de entender o que é carma. Em inglês escreve-se karma, entretanto na língua portuguesa temos pouquíssimas palavras iniciadas por k, assim decidi usar o c, que tem o mesmo som. Original e literalmente a palavra “carma” significa ação. Ação repetitiva que deixa marcas, impressões, com tendência à repetição. Carma pode ser neutro, benéfico ou prejudicial. Há carma fixo e não fixo. Carma pessoal, individual e carma coletivo. Carma de efeito imediato, de efeito a médio ou a longo prazo. Inúmeras possibilidades.
Na cerimônia do arrependimento – que deve ser realizada em grupo, reunindo toda a Sanga nas noites de lua cheia e lua nova –, ficamos de joelhos, de face para o altar principal, e entoamos o poema acima. Mais do que apenas repetir as palavras, é preciso compreendê-las em profundidade, é preciso tornar-se o arrependimento.
Todo carma prejudicial – carma que prejudicou alguém ou alguma situação, coisa, objeto. Carma que não foi benéfico, que não levou os seres ao conhecimento, à sabedoria. Carma sem compaixão, sem afeto. O texto é sobre todo esse carma – não apenas parte dele, não somente alguns aspectos.
Alguma vez cometido por mim desde tempos imemoriáveis – Do que me lembro e do que não me lembro. O que gravei na memória e o que escondo de mim mesma. Causas e condições prejudiciais geradas por mim de forma sistêmica ou eventual e que a memória atual não acessa. Tomo responsabilidade por todo esse carma prejudicial.
Devido à minha ganância, raiva e ignorância sem limites – Ganância, raiva e ignorância são os três venenos básicos que nos impedem de ver a realidade assim como é e atuar de forma adequada. A partir desses três venenos surgem as outras emoções destrutivas, como, por exemplo, ciúme, inveja, rancor, tristeza, preguiça, indolência. São ao todo 108 os obstáculos à mente iluminada. Mente iluminada significa mente lúcida, cheia de luz, claridade, clareza, discernimento correto. A ganância pode ser por coisas materiais ou espirituais. A raiva pode surgir a partir de situações, de encontros ou desencontros entre pessoas diferentes ou até ser dirigida a nós mesmos.
A ignorância não é falta de estudos ou intelectualidade. É falta de inteligência emocional, de conhecer a realidade assim como é e saber atuar de forma assertiva para o bem de todos. Ignorância é o desconhecimento das Quatro Nobres Verdades, ensinadas por Buda em seu primeiro sermão, logo após a iluminação:
Dukkha – sofrimento, dificuldades, insatisfações existem.
Causalidade – há causas para dukkha: nascimento, velhice, doença, morte; estar longe de quem gosta e perto de quem não gosta; estar em um lugar querendo estar em outro; estar realizando uma atividade quando gostaria de estar fazendo outra.
Nirvana – estado de tranquilidade obtida por meio da sabedoria perfeita.
Caminho de Oito Aspectos – visão correta, clara, adequada sobre a realidade, abrangendo oito aspectos: memória, fala, ponto de vista, pensamento, meio de vida, atenção, concentração e sabedoria.
“Quem conhece a Lei da Causalidade conhece o Darma.”
Buda ensina o inter-relacionamento de tudo. Isto existe por causa daquilo. Aquilo existe em razão de outras causas e condições. As causas e condições de algo podem ser efeito de outras situações, numa trama ilimitada. E o ponto principal para Mestre Eihei Dôgen (1200-1253, fundador da tradição Sôtô Zenshû): causa, condição e efeito são simultâneos.
“Tudo o que existe é o cossurgir interdependente e simultâneo.” (Buda)
Nascido de meu corpo, boca e mente – O carma é produzido pelo corpo (ações, gestos, movimentos que causem desconforto, dor, sofrimento, abuso); produzido pela boca (palavras falsas, errôneas, que levam à confusão e à desarmonia; gritos, imprecações, tons de voz alterados e provocativos); produzido pela mente (pensar de forma incorreta, manter pontos de vista falsos).
Agora, de tudo, eu me arrependo – Arrepender-se é transformar-se. É o voto, o compromisso de se observar em profundidade e de se modificar para evitar produzir carma prejudicial e gerar bom carma. Não é apenas o pedido de perdão a uma pessoa ou a uma deidade. É a capacidade de escolher sua resposta ao mundo. Deixar de apenas reagir às provocações, mas agir de forma assertiva e clara, luminosa e compassiva para o bem de todos os seres.
Que possamos produzir carma benéfico incessantemente.
Mãos em prece,
Monja Coen