As Quatro Nobres Verdades – Claudia Gurgel

Dr. Manoel se desparamentou e tomou uma ducha, depois de 18h de plantão como emergencista num grande hospital público de SP. Já era noite e ele ficou intrinsecamente feliz por não ter mais carro e por isso chegaria mais rápido em casa viajando de metrô e “não aumentaria o buraco de ozônio com churrasco de dinossauro”, como diria a sua filha de 13 anos, ativista virtual do Greenpeace.

Saiu do hospital de jeans, casaco de moleton e mochila e ouviu o último “bom descanso, doutor”quando se despediu do vigilante  na guarita e seguiu em passos rápidos se misturando à multidão das calçadas em direção ao metrô.

Enquanto caminhava, sentia o cheiro do churrasquinho de rua, do milho cozido, da pipoca…pensou em como tudo se transformava e migrava  até chegar àquelas bancas nas calçadas. Quantas mãos envolvidos até chegarem  às mãos dos seus consumidores de ocasião.

Descendo as escadarias da estação foi puxado por um garoto magrelinho de olhos famintos e camisa gigante que lhe pedia um real… se viu naqueles olhos imensos e que continham todo o  universo e lhe entregou um pão de queijo num saquinho (que havia comprado há pouco) e lhe deu uns trocados.  Naquela  idade ele queria ser astronauta, mas o pai obstetra famoso e respeitado na cidadezinha o convenceu a seguir a casta de doutores da família Junqueira e lhe  falou  de tradição, poder e fama. e ele seguiu. Mas, entendeu com o tempo  que não existem castelos, nem castas, nem pedestais. Existem vidas a serem salvas, dores a serem aliviadas e palavras compassivas a serem pronunciadas, dia após dia.

Entrou no metrô e sentou-se numa janela. Gostava de perceber a velocidade do tempo e efemeridade das luzes das estações. E pensou na senhora que acompanhou por 35 dias na UTI do hospital. Viúva, sem filhos e com poucas visitas, afeiçoou-se a ele e esperava todos os dias, mesmo fora dos plantões, por aquele “como está minha flor hoje? E ela respondia com um sorriso: “sempre esperando pelo dr jardineiro…” Hoje, a flor havia partido.

Subiu no elevador do prédio com a vizinha lhe perguntando sobre “ um vírus mortal que vem da China,  causa  gripe e mata rapidamente… dizem que se contaminaram tomando sopa de morcego!!! Pelo amor de Deus, isso é porque não são cristãos, dr Manoel!!, dizia a mulher exasperada. Ele deu boa noite e disse que a ciência resolveria isso também e que ela se mantivesse calma, pois por enquanto, devíamos nos proteger da dengue.

Então,entrou em casa silenciosamente. A mulher e a filha já tinham ido dormir. Ele foi à cozinha e havia um post it na porta do microondas escrito “te amo, senti sua falta. Obrigada por cuidar de tantos” e um prato  com seu risoto predileto.

Já na cama ele fechou olhos e pensou em como era bom viver e agradeceu silenciosamente por existir. Dormiu pensando nas estrelas lá fora.

Claudia Gurgel

Bsb, 31/07/2020.

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