“É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer
A Morte…” (música popular brasileira)
Plena atenção, mindfullness, darana são sinônimos.
São também os pré-requisitos para a meditação, dhyana, zen.
E estes são os portais para a iluminação, samadhi, zanmai.
O despertar da mente humana para a grande mente, o não-eu, o grande eu é o portal para a sabedoria que liberta todos os seres.
E é preciso estar atenta e forte, sem medo de viver, sem medo de morrer. Na vida, vivemos. Na morte, morremos.
Cada instante jamais se repete. Não há bis nesta existência. Cada momento é único. Ser capaz de apreciar, de estar presente, estar absolutamente presente, no que chamo presença absoluta. Isto é vivenciar cada etapa da existência. E a existência é vida-morte.
“Vida-morte é de suprema importância.
Tempo rapidamente se esvai e
oportunidade se perde
Cada um de nós deve esforçar-se
Por despertar.
Cuidado!
Não desperdice esta vida”.
Esse poema é entoado todas as noites, depois do último período de zazen (meditação sentada) nos templos, centros e mosteiros zen espalhados por todo o mundo.
Uma pessoa comum decerto estranharia o poema, afinal, hora de dormir não é hora de despertar, certo?
Entretanto, para o Zen, é preciso estar desperta, desperto em todos os momentos.
Compreender vida-morte – este o assunto mais importante para um ser humano.
O questionamento é essencial: quem somos nós? O que somos nós? O que é vida? O que é morte? Há vida após a morte ou morte após a vida?
Espíritos, almas, energias? Deus ou deuses?
Deusa ou deusas?
Espíritos famintos, demônios, animais, espíritos guerreiros, espíritos celestiais, espíritos humanos.
Estes são os seis mundos, explicados por Buda.
Instante a instante podemos transmigrar de um para o outro. Não apenas após a cessação das conexões neurais – a morte cerebral e/ou a falência múltipla de todos os órgãos.
No momento em que nada me sacia – sou um espírito faminto, em japonês me transformo em um gakki.
Quando estou em grande sofrimento e nada parece ser capaz de me libertar – estou no mundo da dualidade, dos diabos (de onde vem a palavra dual), entre demônios.
Se apenas os instintos me controlam, se estimulo demasiadamente os níveis de sobrevivência básica: sono, sexo e comida, penetro o reino animal.
Quando encontro razão para brigar, discutir, invejar, enciumar, lutar, penetro no mundo dos espíritos guerreiros ou asuras, em sânscrito.
Se tudo está perfeito e bom, se encontro plenitude em cada momento, se nada me falta e nada almejo, estou no céu, entre os seres celestiais.
E quando sou uma mescla de todos os sentimentos e possibilidades, da alegria ao tormento, sou um ser humano. Mas, apenas os seres humanos tem a capacidade, condição de se questionar e de despertar.
Ser humano surge de inúmeras causas e condições.
Quando essas causas e condições cessam, se desfazem, transmutam, o ser humano deixa de ser uma individualidade e retorna ao uno, ao não nascido e não morto.
Este uno, não nascido e não morto, não é uma entidade ou estado amorfo. Como toda vida-morte é movimento, transformação, resultado e resultante de inúmeras causas e condições.
Nada fixo, nada permanente.
Nem na vida nem na morte.
Logo, vidamorte se torna uma única palavra.
Compreendê-la é a grande questão das filosofias, das religiões, das crenças, das espiritualidades.
A grande questão humana.
O que somos nós? Por que nascemos? Por que morremos?
Todos nossos ancestrais de oito mil anos atrás já morreram. Entretanto, vivem em nós.
Somos a vida da Terra.
Não viemos de fora e nunca iremos para fora.
Não há fora nem dentro.
Há o eterno aqui e agora.
Esse eterno momento presente é movimento, onda e partícula simultaneamente.
E o ser e o não ser. Além da dualidade.
Qual a terceira visão?
Qual a outra possibilidade além da mente binária?
Procure, investigue, não desista. Está tudo em você e à sua disposição, se quiser saber.
“Quando surfamos, pegamos a última fase de uma onda, que nasceu longe, em alto-mar.
Tornar-se uma coisa só, no movimento derradeiro dela.
Após milhas e milhas navegadas, acumulando energia.
Quando ela acaba, é como se morrêssemos juntos e, num estado de presença absoluta, uma energia revigorante é liberada, como um renascimento.
Vida/morte num continuum incessante.”
André Tenryu, pianista, surfista zen, texto de janeiro de 2017.
Vidamorte é este continuo ininterrupto de nascer e morrer a cada instante.
Como as ondas do mar.
Cada vida humana pode ser comparada a uma onda no mar. Há grandes e pequenas, curtas e longas, da direita, da esquerda, caixotes…surfistas dão nomes a cada tipo de onda. Porque as observam.
Quem não as observa em profundidade pensa que são todas iguais.
Quem não observa em profundidade a si mesmo pensa que é sempre a mesma pessoa.
Cada onda tem sua formação em inúmeras causas e condições: as águas, as marés, os rios, as enchentes, as chuvas, as lágrimas, as fases da lua, as depressões, os movimentos da crosta terrestre, maremotos, tsunamis, águas calmas e claras, águas turvas.
Inúmeras causas e condições para um resultado que é causa de outro resultado, condição para um terceiro e assim por diante, numa rede infinita do Inter Ser.
Inter Ser é uma nova palavra, criada pelo monge vietnamita Thich Nath Hahn. Ele que sobreviveu a guerra do Vietnã para pregar a paz, o respeito, a não violência ativa. Tai, como é chamado por seus discípulos, quer dizer Mestre, transmite os ensinamentos de Buda histórico. Esses ensinamentos nos dizem que o sofrimento, a dor, a violência , a ganância, a raiva, a ignorância são venenos que nos afastam da verdade.
O encontro com a verdade, com o caminho, com o Darma – lei verdadeira, é o caminho da libertação.
Libertação das amarras e apegos mundanos.
Libertação de conceitos e ideias tacanhas, medíocres.
Libertação de preconceitos e discriminações.
Libertos nos apercebemos interligados a tudo e a todos: ao trovão e a cada gota de chuva, a planta e o inseto, aos pássaros que silenciam e ao cães que ladram.
Trumm, trumm.
O trovão ressoa. É um deus falando?
A eletricidade estremece, o cão uiva…seriam demônios?
A completa libertação de todos os grandes demônios é obtida quando Prajna Paramita, a sabedoria perfeita, se manifesta.
A sabedoria perfeita é a compreensão clara de que tudo está se transformando incessantemente.
Assim como a cinza não volta a ser brasa e a brasa não volta a ser lenha, a morte não volta a ser vida.
A lenha é um período em si mesma.
A brasa é um período em si mesma.
A cinza é um período em si mesma.
Cada uma tem começo, meio e fim.
Entretanto são interdependentes. Se não houver lenha, se não fizermos o fogo, não haverá brasa e sem brasa não haverá cinza.
Cada onda do mar facilita, influi na onda seguinte, que nunca é a mesma.
Embora tudo seja água salgada, cada momento é único. Parece um único movimento, mas são inúmeros.
A matéria prima de que é feito o cosmos, todo o multiverso, talvez seja exatamente a mesma. Mas, as possibilidades de combinações, nos berços de estrelas, são diferentes.
Cada manifestação é única: trovão, raio, chuva.
Como recebe a Terra, as terras, o asfalto, o vulcão, as planícies, os vales e as montanhas essas águas que vem do céu?
Como se manifesta em sua vida, em nossa vida, a vida morte?
E quando o momento de partir chegar, quando o momento da despedida se abrir, podemos rir e chorar, podemos nos lamentar e esperançar.
Pois estamos juntos, sempre juntos. No passado e no futuro, no presente. Interlaçados por nossos fios luminosos de sentimentos, emoções, consciências, memórias, respostas, no processo incessante de vida morte.
No Budismo, em geral, oramos durante 49 dias para alguém que morreu. Seguindo o Livro Tibetano dos Mortos, que se baseia em ensinamentos de Buda, há 49 etapas ou bardos que temos de atravessar.
Mas esses bardos ou etapas não são apenas após a morte. São durante todo o processo da vida.
Nosso carma, nossas ações repetitivas, nos impulsionam a agir, pensar, falar de certa maneira.
Adentramos, passamos, atravessamos etapas.
Para não estacionarmos em etapas intermediárias, meditamos, oramos, praticamos os ensinamentos superiores.
Se, durante a vida, a pessoa não se deu conta, não percebeu, não se questionou, não despertou, cabe aos monges e monjas fazer as orações para que vá para a luz infinita.
No processo do fim da vida, considero importante que a pessoa saiba que está terminando.
É um ritual de passagem para quem vai e para quem fica.
Iniciamos com o arrependimento, uma espécie de revisão de nossas ações, palavras e pensamentos.
Podemos nos arrepender de tudo que foi repetitivo e prejudicial, quer a nós mesmos quer aos outros.
Esse arrependimento é um tomar responsabilidade por nós mesmos e um compromisso de regeneração, de reeducação, de mudança metanoica (transformação).
Buda recomendava que fizéssemos o arrependimento na lua cheia e na lua nova.
Essa revisão é a renovação dos votos de não fazer o mal, fazer o bem e fazer o bem a todos os seres.
Dessas três regras de ouro surgem todos os outros Preceitos, a vida ética.
Entretanto, os Preceitos, a Ética estão baseados no Conhecimento, na Compreensão Clara, na Sabedoria Perfeita –em Prajna Paramita.
Compreensão clara da transitoriedade – nada fixo, nada permanente.
Compreensão clara da interdependência de tudo que existe – o InterSer
Conhecimento claro de que o sofrimento, a dor existem.
Sabedoria de que há um estado de libertação chamado Nirvana ou Nehan (cessação)
Prática de um Caminho de Oito Aspectos que é o próprio Nirvana.
Nas cerimônias que antecedem o fim da vida, monges e/ou monjas são chamados para fazer as preces. São lidos trechos dos ensinamentos de Buda que facilitem a compreensão deste continuo transformar, sem apegos e sem aversões.
Há também a prece do travesseiro, assim chamada. Quando a pessoa morre, quando os médicos autenticam o óbito, os religiosos e religiosas fazem a prece no local onde faleceu. Geralmente se lê o último sermão de Buda, conhecido como Parinirvana Sutra (Ensinamento do Grande Nirvana ou da grande Cessação).
O que é lido atualmente é o Breve Parinirvana Sutra – um excerto do texto original.
No seu último ensinamento, no meio da noite, Buda disse a seus discípulos que não se lamentassem.
Buda os exortou para que se lembrassem que tudo que começa inevitavelmente termina.
Disse também que não era o seu corpo que eles amavam, mas seus ensinamentos.
Sua última mensagem é a de que fizessem dos seus ensinamentos o seu mestre e que assim ele viveria para sempre.
Refugiamo-nos em Buda.
Refugiamo-nos no Darma
Refugiamo-nos na Sanga.
São os três abrigos nas Três Joias ou Três Tesouros:
Buda, o ser iluminado, desperto, sábio
Darma, a lei verdadeira
Sanga, a comunidade em harmonia
Esse refúgio ou abrigo é um sentir-se amparado, protegido – tanto na vida quanto na morte.
Buda é a nossa capacidade de despertar, se procurarmos pelo despertar, se fizermos as conexões neurais, se estimularmos essas sinapses de sabedoria iluminada.
O mesmo para o Darma, para percebermos a lei que rege este universo: nada fixo e tudo interrelacionado a tudo.
Sanga é a comunidade, pessoas que compartilham conosco do propósito de fazer o bem a todos os seres – tanto na vida quanto na morte. E assim sendo, vivemos e morremos em harmonia com tudo que é, foi e será.
É importante perceber o fim a vida, cada transformação, cada etapa, e o adentrar a morte.
Muitas pessoas relatam experiências quase morte. São semelhantes. O túnel, a luz, a tranquilidade.
Da mesma maneira, cada um de nós, deixa com sua vida um ensinamento, que se for continuado nos dará vida eterna. Não que eu, esta entidade fenomenológica única, vá viver para sempre.
Os ensinamentos, os aprendizados, as descobertas, se manterão vivas de geração em geração, se forem perpetuadas. Como genes, cromossomas, DNAs. Passando de geração a geração tendências, maneiras de ser, de pensar, de sentir, de interagir.
Assim como no meio científico, cada geração tem a oportunidade de reaprender das experiências anteriores e dar continuidade ao processo numa espiral de desenvolvimento, no mundo espiritual também podemos dar continuidade aos ensinamentos que recebemos e os tornar acessíveis às gerações atuais e futuras.
Quando o propósito é para que as pessoas vivam em plenitude, despertas, felizes, respeitosas, cuidado uns dos outros e do meio ambiente – estamos entrando na esfera dos Budas e Bodisatvas. Seres iluminados cujo sentido de vida é o despertar pessoal e coletivo. É o caminho da felicidade plena – passageira, transitória e por isso mesmo preciosa. Como tudo não é fixa, nem permanente.
Que todos os seres humanos possam perceber que somos a vida da Terra, que interdependemos de todos os seres, que não há nada pelo qual matar ou morrer, mas sim pelo que viver e partilhar.
Que nada há a temer, nem na vida nem na morte, que cada instante é único e que a viagem de desapego a este corpo e a esta vida nos leva à origem, ao grande oceano de luz infinita, às ilimitadas possibilidades do nada-tudo.
Deixamos marcas invisíveis das nossas ações, palavras e pensamentos. Marcas que tendem a ter continuidade e serem repetitivas.
O que queremos para nossos descendentes, os futuros habitantes do planeta, aqueles cujas faces jamais veremos?
Que vivam em plenitude, que saibam olhar em profundidade, manter a mente atenta à vida em sua diversidade, à morte em sua pluralidade e perceber que somos a teia da existência e podemos brilhar uns para os outros – eterna mente.
Mãos em prece
Monja Coen