Nem todos são educados a respeitar a vida em sua pluralidade e continuidade.
Só existimos hoje porque houve quem nos antecedesse.
Somos um contínuo da vida. Sem nossos ancestrais não estaríamos aqui.
Herdamos características físicas e psíquicas. Herdamos também o carma familiar.
Somos a continuidade dessa história ancestral de milhões de anos. Tantos e tantos seres cujas características, atividades, hábitos, nomes, doenças, forças jamais conheceremos, mas que se manifestam nas nossas vidas.
Quando nos lembramos dessa imensa árvore da vida e nos reverenciamos com ofertas, preces e uma vida correta, estamos regando nossas próprias raízes e fortalecendo a essência da vida desde o passado mais longínquo ao futuro mais distante. Transformamos carma ancestral com nossas atividades atuais e produzimos carma para nossos descendentes – que seja benéfico.
Há quem faça ritos memoriais apenas uma vez ao ano, em nome de todos os familiares. Há quem faça várias vezes ao ano – em datas específicas de falecimentos dos últimos conhecidos ou nas datas históricas do budismo.
Essas cerimônias podem acontecer em julho ou agosto, por volta dos dias 13 a 18 e são chamadas, no Japão, de Obon-e ou Urabon-e. Grande memorial anual, baseado numa história da época de Buda Xaquiamuni. Um de seus discípulos, Maudigalyana, teve visões de sua falecida mãe sofrendo muita fome e sede. Tudo que ele oferecia em sua memória se transformava em material repugnante e ela jamais se satisfazia.
Maudigalyana foi falar com seu mestre e pediu orientações.
Buda sugeriu que, após os retiros da época das Monções, fariam uma prece especial. Nessa cerimônia, com muitas ofertas de todos os tipos de alimentos, Buda invocou todos os espíritos de todos os mundos para que viessem se servir a seu contento e ficassem satisfeitos.
Assim surgiu o serviço memorial anual de Obon.
No Japão foi criada uma liturgia especial para essa época do ano, quando monges e monjas trabalham muito, desde seis da manhã até dez da noite, orando na casa de todos os membros de seus templos e, no último dia, há um grande ritual no templo principal.
A mesma liturgia de Obon é repetida nos Equinócios de Outono e de Primavera (no Brasil em março e em setembro), numa outra celebração chamada Ohigan. Essa palavra quer também dizer Paramita ou Haramita. Significa a completude, a perfeição, o acessar a margem da sabedoria perfeita. A liturgia é semelhante à de Obon e geralmente é feita para os mortos.
Mas, assim como Obon, onde os vivos, depois das preces e das refeições acabam dançando para que os mortos fiquem satisfeitos, no Ohigan as preces não são apenas para que os mortos atravessem com mais facilidade para o Nirvana. Os vivos também podem atravessar o rio de nascimento, velhice e morte com mais facilidade, se praticarem os ensinamentos dos Seis Paramitas ou Haramitas, também chamados de Seis Perfeições:
Dana Paramita – Doar, compartilhar
Shila Paramita – Preceitos, vida ética
Kshânti Paramita – Paciência, tolerância
Virya Paramita – Zelo, esforço
Dhyana Paramita – Zen, meditação
Prajna Paramita – Sabedoria, compreensão clara
Cada um desses aspectos está relacionado aos outros. Quem for capaz de os manter, definitivamente estará criando carma benéfico – a melhor maneira de honrar, agradecer e homenagear os ancestrais.
Há uma outra ancestralidade a que devemos agradecer.
Dos nossos estudos, trabalho, arte, filosofia, profissões e vida espiritual.
Na nossa tradição Soto Zen Shu agradecemos primeiramente a Xaquiamuni Buda, mestre fundador original. Em seguida, toda a linhagem de monges e monjas, leigos e leigas que vêm mantendo vivos os ensinamentos e as práticas de Preceitos, Zazen e Sabedoria.
Especialmente agradecemos e honramos a memória de Mahaprajapati Daiosho, a primeira monja histórica.
Nossa gratidão atual a toda linhagem monástica feminina pode se concentrar no respeito à prática e à realização da Abadessa do Mosteiro Feminino de Nagoya, Aoyama Shundo Docho Roshi, minha mestra de treinamento.
A formação da Soto Shu – Zen Budismo no Japão – se deve a nossos mestres fundadores, Eihei Dogen Daiosho Zenji e Keizan Jokin Daiosho Zenji cujo memorial anual, para ambos, é celebrado no dia 29 de setembro.
Que sejamos capazes de honrar e agradecer a ancestralidade que manteve e nos transmitiu o caminho da libertação.
Que sejamos capazes de transmitir os ensinamentos para que continuem, incessantemente, a beneficiar todos os seres.
A vida ética, o respeito à tradição e aos Três Veneráveis: Xaquiamuni Buda, Mestre Dogen e Mestre Keizan, a capacidade de praticar os Seis Paramitas em nossas atividades diárias são o caminho de gratidão ancestral por todos que nos antecederam e por todos nós que nos propomos a nos tornar ancestrais das gerações que estão a vir.
Mãos em prece
Monja Coen