Meditação – um fator de equilíbrio
Espiritualidade e Equilíbrio
Equilíbrio Zen
Equilibrar é colocar-se em equilíbrio, estabilidade.
Alguns sinônimos:
balancear, nivelar, igualar, harmonizar, adequar, conciliar, combinar, manter-se, sustentar-se aguentar-se.
Será que nos aguentamos? Sustentamos a nós mesmos ou precisamos de sustentação externa?
Será que desenvolvendo a capacidade de atenção podemos encontrar equilíbrio?
Acredito que a chave para o equilíbrio emocional e mental seja a atenção desenvolvida através das práticas meditativas. Quando equilibramos nossa atenção podemos apreciar a vida.
Podemos prestar atenção em nós mesmos, em nosso processo mental e sentir carinho e respeito por nós e por todos e tudo à nossa volta.
Desta atenção, que inicia com a própria respiração, surge um estado de bem estar- pela qualidade da própria respiração, que se regulariza ao ser observada.
A mente clara e incessante, luminosa, nos permite fazer escolhas adequadas. E nossas escolhas deixam de ser miúdas, pequenas, focando apenas em nosso bem estar individual, mas se tornam escolhas que envolvem o bem estar de todos os seres. Isto é qualidade de vida ou vida com qualidade. Cuidar de si e dos outros é dar um sentido de bem estar à própria existência. É equilibrar-se com graça e suavidade entre o céu e a terra.
Há perguntas que nos devemos fazer:
O que compõe a nossa realidade? Como vivemos?
Apreciamos o dia e a noite? Sorrimos e nos alegramos com a existência? Ou será que a desatenção está afetando nossas relações internas e externas? Será que sem prestar atenção a cada instante precioso da vida, nos apressamos como pessoas desatentas e ferimos a nós e aos outros?
Conheci, na minha juventude, um psiquiatra em São Paulo, José Angelo Gaiarsa, que certa vez comentou que ser um equilibrista é mais importante do que ser uma pessoa chamada equilibrada.
Professor Hermógenes, um dos pioneiros do Yoga no Brasil, criticava os “normóticos”- a doença das pessoas que querem ser consideradas normais.
O equilíbrio não é um aspecto da normose.
O equilíbrio Zen, através do zazen – prática meditativa – é baseado em questionamentos sobre nós mesmos e a realidade na qual estamos inseridos. Será que utilizamos nosso tempo no que nos faz bem? Atendemos às nossas necessidades verdadeiras ou aos nossos apegos?
Será que somos manipuladas a usar nossa energia vital, emoções e pensamentos, palavras e atitudes no que desgasta e embriaga a mente?
Somos capazes de perceber com clareza o que a realidade nos apresenta? Sabemos ler a realidade, as pessoas, as situações, ou usamos lentes que distorcem a realidade?
Estamos desenvolvendo a capacidade do respeito e do cuidado – tanto conosco como com outras pessoas?
Qual nosso relacionamento com o meio ambiente?
Será que percebemos que somos o meio ambiente?
Estamos dando a devida atenção à interdependência e à transitoriedade? Nada fixo, nada permanente e tudo interligado, intersendo.
Você percebe que tudo e todos estão em movimento incessante? E que você também está se transformando incessantemente?
Quando meditamos de forma correta desenvolvemos a qualidade da presença absoluta, que nos facilita o realinhar a cada instante. O reequilibrar incessante, como a equilibrista na fina linha suspensa entre a vida e a morte.
O Zen é uma prática meditativa, embora não usemos a palavra meditação, pois o verbo meditar é transitivo e exige um objeto.
Quando sujeito e objeto se fundem, entramos no Zen.
Geralmente sugerimos que, para praticar Zazen (sentar-se em Zen)as pessoas devam escolher um local quieto, nem muito claro nem muito escuro, nem muito quente nem muito frio. Um local onde possamos sentir conforto e nos mantermos estáveis, de frente, preferencialmente, a uma parede branca. Reduzimos os estímulos e nos sentamos.
O ideal seria colocar uma almofada quadrada e fina sobre o chão – aproximadamente de 90cm por 90cm e altura de uns 10cm – e sobre esta uma almofada arredondada de uns 30cm de altura e 50cm de diâmetro.
Mas você pode se sentar no chão, sobre um tapete agradável e dobrar uma coberta, como se fosse uma almofada, e se sentar sobre ela.
Devemos sentar da metade para a frente da almofada, de forma que os ísquios estejam apoiados na almofada e os joelhos cheguem até o chão, ou, se colocou uma almofada quadrada sobre o chão, que os joelhos ali se apoiem. Esse posição do corpo é importante para a estabilidade – construir com seu corpo um triângulo de base.
Depois de sentar, mova o tronco lentamente, da esquerda para a direita até encontrar o eixo de equilíbrio.
Estamos sempre procurando este eixo de equilíbrio – físico e mental.
Há o exercício respiratório de inalar passivamente pelas narinas e exalar pela boca, abrindo a glote e procurando esvaziar ao máximo os pulmões.
Esse exercício pode ser repetido três vezes.
Sempre a expiração mais longa que a inspiração.
A respiração consciente é o princípio do auto conhecimento, que é, na verdade, o conhecimento do ser humano e seu locus social e ambiental. A consciência plena leva à presença absoluta.
Estar absolutamente presente em seu corpo e com a mente alerta, brilhante, pronta a responder às mais diversas situações com adequação e leveza, humor e bondade. O corpo também, livre de tensões extras, se auto alinha.
A sugestão é respirar naturalmente pelas narinas.
Sem esforço, sem pressa.
Deixando a ansiedade e todas as expectativas descansarem, apenas sentar e se tornar a própria respiração. E este inspirar e expirar atento é a base de todo processo meditativo.
Há várias posturas possíveis para a prática do Zen, desde sentar com as pernas entre cruzadas (posição de lótus, meia lótus e suas variações), como deixa-las pousadas no chão. Também pode ser feito em uma cadeira, ou de joelhos, com os glúteos apoiados em um banquinho. A prática pode ser também deitada em uma superfície plana, para quem tem alguma necessidade especial. E existe a meditação caminhando. Esta, entretanto, é feita muito lentamente, passos curtos acompanhando a respiração consciente.
Todo o processo meditativo trabalha o foco, a concentração, a atenção plena, a consciência de si mesmo e da interdependência.
Os antigos recomendavam que a meditação fosse feita em salas monásticas tranquilas, temperatura regulada, nem muito claro nem muito escuro, nem muito quente nem muito frio. Também recomendavam a meditação à beira de rios calmos ou montanhas distantes.
Atualmente há grupos que se reúnem para meditar nas ruas de São Paulo, uma vez por semana.
Quando estava no Japão, fui convidada a participar de um encontro Zen em uma das grandes lojas de departamentos. Percebi que podemos meditar em qualquer lugar, pois não há boa ou má meditação.
Quando conheci o Zen, em Los Angeles, eu trabalhava
em um banco no centro da cidade. No horário do almoço sempre procurava um local tranquilo para meditar. Entretanto notei que causava certo estranhamento entre as outras pessoas – quer nas igrejas, quer nas praças, e acabei concentrando minhas práticas meditativas na sala de zazen do Zen Center of Los Angeles. Lá sim, havia a atmosfera adequada, pois era um local dedicado apenas ao zazen.
O princípio do zazen é da mente conhecer a própria mente. Reconhecer talvez seja a palavra mais adequada, pois somos a mente. Somos o corpo, a mente e o espírito. Indissolúvel trio na vida e na morte.
O equilíbrio do corpo físico se estabelece através de pequenos e constantes reajustes, quase imperceptíveis.
O equilíbrio mental-espiritual também não é diferente.
Equilibrar corpo-mente é se tornar um bom equilibrista. Os movimentos de reajuste são tão sutis, quase imperceptíveis para quem esteja olhando quem medita. Mas estão sempre acontecendo. Tanto interna quanto externamente.
A vida nos provoca, empurra, puxa e afasta incessantemente. Alegrias e tristezas, esperanças e desesperanças.
Como respondemos às provocações do mundo?
Precisamos conhecer a mente, suas inúmeras e múltiplas possibilidades.
O silêncio das práticas meditativas proporcionam um ambiente favorável para esse conhecimento.
O fundador da ordem religiosa Soto Zen Shu, a que pertenço, Mestre Eihei Dogen (1200-1253), escreveu um texto belíssimo sobre o Zazen (sentar-se em Zen) onde descreve o pensar, o não pensar e o ir além do pensar e do não pensar.
Importante. Meditar não significa apenas não pensar.
A cessação dos pensamentos repetitivos é uma das possibilidades. Observamos os pensamentos, os sentimentos, as emoções, memórias, sensações, conexões neurais e consciência.
Observamos o silêncio e o não pensar.
Mas vamos além, Já não há um eu observando e nem uma mente sendo observada.
São momentos de ruptura em que nos percebemos intersendo com tudo que existe, toda a vida da Terra.
Xaquiamuni Buda, depois de uma semana de Zazen, tendo atravessado todos os portais da dualidade, ao ver a estrela da manhã murmurou:
“Eu e a grande terra e todos os seres, juntos, simultaneamente, nos tornamos o Caminho.”
Este Eu é a Grande Terra e é Todos os Seres.
O despertar é perceber-se inter ligado a tudo e a todos.
Como o monge vietnamita, Thich Nhat Hanh sugere deveríamos colocar uma palavra nova nos dicionários: Interser.
Já não podemos mais dizer eu sou, tu és, ele é, mas eu intersou, tu interés, ele é interé, nós intersomos…
Estamos interconectados a tudo e a todos. Somos essa rede de relacionamentos em transformação incessante.
Não há nada fixo, nada permanente.
Cada instante é único e ao mesmo tempo está conectado a tudo que existe neste único momento, que se relaciona com todos os momentos do passado e do futuro.
Meditar é penetrar a essência do ser, percebendo o interser.
Conhecer este organismo extraordinário que é o corpo humano inclui conhecer este computador de última geração chamado de mente humana.
Tudo que tem sido criado em termos de informática é uma cópia rudimentar da mente humana. Tudo é criado pela mente. Por isso precisamos conhecer a nossa própria mente. Só assim seremos capazes de escolher nossas respostas ao mundo.
Para que não sejamos manipulados nem manipuladores, mas seres livres, em equilíbrio, responsáveis e atuantes na sociedade e no mundo – isto é o que os processos meditativos podem e devem facilitar.
É nosso dever e direito, de nascença, Despertar.
Não devemos desperdiçar nossa vida humana, vagando sem rumo, quando podemos apreciar cada instante eterno e mutante da nossa vida.
Que os seres iluminados e benfazejos nos abençoem e iluminem para que possamos acessar à nossa própria iluminação e viver de forma saudável e equilibrada beneficiando a si e aos outros.
Somos a vida da Terra. Assim como todas as outras formas de vida. E devemos lembrar que tudo está vivo e em movimento. Pedras, grama, paredes, insetos – tudo que existe no processo vida-morte – chamamos de todos os seres.
Não apenas os cuja sensibilidade se assemelha a de nós, humanos, mas todos os seres é muito mais abrangente. É disso que falava Xaquiamuni Buda. É o que ensinavam os fundadores da minha ordem Soto Zen Shu, Mestre Eihei Dogen e Mestre Keizan Jokin (Séculos XII e XIII):
“Todos os seres são a Natureza Iluminada, a Natureza Buda se manifestando em inúmeras formas. “
Aprecie a vida em sua diversidade e viva com alegria para morrer com a dignidade de quem faz o seu melhor.
Mãos em prece
Monja Coen