Charles Darwin, o cientista que desenvolveu a teoria da evolução, teve um insight de como a vida se espalha pela Terra e o desenhou no formato de uma árvore com vários galhos. Um ponto originando outro, e outro, e outro.
A metáfora da árvore da vida pode ser aplicada às várias escolas e tradições do Budismo. Também assim os ensinamentos do Buda foram se irradiando organicamente, se adaptando a cada ambiente que encontraram.
No que viria a ser uma grande e frondosa árvore, o Budismo brota com o despertar de Sidarta Gautama à sombra de uma Ficus religiosa em Bodh Gaya, Bihar, na Índia, cerca de 2.500 anos atrás.
Dessa semente, os galhos do Dharma se espalham em todas as direções.
Em alguns lugares como grossos e fortes ramos, em outros como brotos. Ao longo dos séculos, o desenho impermanente vai se alargando e encolhendo de acordo com a direção em que o vento do Dharma sopra.
Dessa metafórica árvore, dois galhos frondosos, sobre os quais vamos falar aqui, são o Soto Zen Budismo – popular no Japão, onde tem mais de 8 milhões de adeptos e 15 mil templos e que hoje se expande pelas Américas – e o Theravada, tradição religiosa principal no sul da Ásia, em países como Sri Lanka, Burma, Tailândia e Laos.
Sidarta Gautama ao despertar se torna Shakyamuni Buda – o sábio desperto do clã do Shakyas, o Buda histórico – e opta por compartilhar suas descobertas com outros seres. Ensina o Dharma até os 80 anos.
Conta-se que 500 monges, que haviam sido ordenados pelo próprio Buda, fazem o primeiro concílio budista três meses após o parinirvana (como é chamada a morte de Shakyamuni) e promovem a primeira organização e memorização dos ensinamentos deixados pelo Tatagata. Embora já houvesse os sinais do surgimento de um budismo mais progressista, não há registro de cisão neste primeiro encontro.
No segundo concílio, cerca de um século depois do parinirvana de Buda, já havia divisão entre as sanghas monásticas em pelo menos dois grandes ramos: o Hinaiana – chamado de pequeno (hina) veículo (iana) porque foi formado por um grupo menor de pessoas- e o Mahaiana – grande (maha) veículo (iana), assim batizado por uma questão histórica, já que o grupo inicial tinha mais adeptos.
Do Hinaiana – mais tradicionalista e conhecido como Doutrina dos Anciões – no futuro surgiria o budismo Theravada. Da Mahasamghika, ou grande comunidade, brotariam as escolas associadas ao Mahaiana, do qual a Soto Zen viria a fazer parte séculos depois.
Atualmente, não usamos mais o termo Hinaiana porque passou a ter uma conotação pejorativa, como se fosse uma doutrina menor ou insignificante, o que não é verdade.
Por questões geográficas, doutrinárias e de adaptação do Dharma para culturas diferentes apareceram ao longo dos séculos várias divisões e correntes no budismo. O surgimento, união e extinção de escolas e tradições contam a história do vivo, mutante e impermanente mosaico do espalhamento do Dharma.
Segundo o monge Theravada Walpola Rahula, “dificilmente existe alguma diferença entre Theravada e Mahayana com relação aos ensinamentos fundamentais”. Para Rahula, ambas as escolas aceitam Buda Sakyamuni como mestre e acolhem, sem nenhuma discussão, ensinamentos importantes como as Quatro Nobres Verdades – que são exatamente as mesmas em ambas as escolas -, o caminho óctuplo, a originação dependente (Paticca-samuppada), além de conceitos como Anicca, Dukkha, Anatta e Samadhi. Ambas rejeitam a ideia de um ser supremo criador e dirigente deste mundo.
Um dos principais pontos de divergência entre as escolas, diz Walpola Rahula, é sobre o ideal do Bodhisattva. “Muitas pessoas sustentam que na escola Mahayana é o caminho do Bodhisattva que conduz à Buddheidade enquanto que na escola Theravada é o caminho do Arahant”, explica. Arahant é aquele que atingiu o Nirvana.
Os Arahants, ou arakans na terminologia usada pela Soto Shu do Japão, “os textos da escola Mahayana nunca utilizam o termo Arahant-yana, Veículo do Arahant. Eles utilizam três outros termos: Bodhisattvayana, Pratyeka-Buddhayana e Shravakayana. Na tradição Theravada, estes três veículos são denominados Bodhis”, Walpola Rahula acredita que “os textos da escola Mahayana nunca utilizam o termo Arahant-yana, Veículo do Arahant”, mas o termo é amplamente usado no Soto Zen do Japão, havendo inclusive cerimônias de invocação dos Arakans, como os Arahant são chamados por esta escola.
Dogen Sama, fundador da Soto Zen no Japão, na sua obra máxima, o Shobogenzo, dedica um capítulo inteiro aos Arakans, contradizendo o que Walpola falou.A enfase maior não é do despertar individual primeiro. O arakan só iria ajudar o outro depois que eu despertar. E o bodisatva é aquele mesmo que eu não desperte eu vou ajudar o outro. ajudar o outro a atravessar o rio é mais importante, mesmo que eu não chegue lá. Dogen vai dizer que arakans, bodisatvas e budas não são diferentes, são todos seres iluminados. fazem o mesmo voto de fazer o bem a todos os seres.
Capitulo 33 do livro Shobogenzo, Mestre Dogen.
Tradutor “While the concept of the arhat has occupied a central position in Southern Buddhist traditions, it tends to be given a secondary position in Mahayana traditions, with the bodhisattva ideal being primary. ”
Excerpt From: “Shobogenzo Complete.” Apple Books.
“Dogen’s discourse, however, covers much broader and varied applications of the term, thereby embracing a more universal perspective.
“With all their desires already completely spent and having gone beyond all defiling passions, they have succeeded in reaching what truly benefits them, and, having brought to an end the bonds to existence, their minds have been set free .”
Excerpt From: “Shobogenzo Complete.” Apple Books.
Desejar e procurar o estado de arakan é estar satisfeito com seu mingau [N. do. T.: mingau de arroz é a refeição matinal nos mosteiros] e estar satisfeito com seu arroz.
Dois pontos causam mais polêmica entre os seguidores Mahayana e Theravada. Um é o argumento de que o Budismo mais “antigo e original” seria o Theravada. Outro é que a vacuidade (Sunyata) e o vazio (Shunhya) – termos centrais do Mahayana – seriam conceitos inventados posteriormente, possivelmente pelo ancestral Nagarjuna.
Walpola Rahula defende, porém, que a noção do vazio (Shunya) não é um ensinamento puramente Mahayana.”Esta noção se fundamenta nas ideias de Anatta ou não-eu e de Pattica-samuppada ou Originação Dependente encontradas nos textos originais Theravada na língua pali”, aponta.
Sobre isso, Rahula cita a seguinte história: “em uma oportunidade, Ananda indagou ao Buda: “As pessoas utilizam a palavra Sunya. O que é Sunya?” O Buda respondeu “Ananda, não há ‘eu’ e nem há algo que pertença ao ‘eu’ nesse mundo. Portanto, o mundo é vazio”. Rahula conclui afirmando que esta ideia foi adotada por Nagarjuna quando escreveu seu notável livro “Madhyamika-karika”.
É preciso levar em conta também que a tradição Mahayana, incluindo o Zen, considera o budismo uma tradição viva, baseada na experiência. Acredita-se que os textos budistas devem ser interpretados e até mesmo atualizados por professores. Deste ponto de vista, não é tão importante quem teria os ensinamentos mais antigos e sim quem consegue compreender e manter viva a essência dos ensinamentos do Buda.
A leitura mais literal dos sutras leva a escola Theravada a adotar práticas e costumes diferentes da Mahayana, que busca adaptar os preceitos à realidade contemporânea. No Zen a aplicação dos preceitos é compreendida como uma manifestação de sabedoria e compaixão, devendo ser ajustada a cada momento, sempre buscando o menor sofrimento de todos os seres.
No documento Pontos Básicos que Unificam Theravada e Mahayana, aprovado em 1967 (e modificado em 1981) pelo Conselho Mundial da Comunidade Budista (WBSC), conclui-se que, embora sejam reconhecidas três formas de alcançar o despertar de acordo com a capacidade e habilidade de cada indivíduo – como um estudioso (Śrāvaka), como um indivíduo ou como um Buda perfeita e completamente desperto (SamyaksamBuda), sendo o caminho do Bodhisattva o mais nobre – todas fazem parte do mesmo caminho de Buda. O documento ressalta ainda que os veículos Śrāvakayāna e Mahayana constituem um único veículo (ekayāna, o veículo único).
“Você deve entender que na família do Buda não há discussões sobre Ensinamentos “superiores” ou “inferiores”, e não se deve apontar algum Dharma como mais superficial ou profundo. Você deve simplesmente tentar reconhecer o que for genuíno ou falso no treinamento e prática”
Dogen Zenji, Shobogenzo, Capítulo Bendōwa
E, então, quais são as diferenças entre o Zen e o Theravada? Ao entrar em um templo ou conhecer uma monja ou monge, como saber a que tradição pertencem?
Vamos a algumas mais óbvias:
- O objetivo do budista Theravada é tornar-se um arhat, um ser totalmente desperto, o que exige grande dedicação e, geralmente, é algo tentado apenas por monges
- A tradição Mahayana, conhecida como grande veículo, tem como foco o caminho do Bodhisatva e considera que leigos também podem alcançar a iluminação.
- A tradição Theravada é organizada no sentido de quebrar o ciclo da Samsara e assim escapar das reencarnações.
- No budismo Mahayana, o Bodhisatva escolhe manter-se na Samsara e reencarnar por compaixão pelos outros seres
- A Theravada segue os ensinamentos em Pali, usa a meditação samatha ou vipassana*, e, atualmente, é praticada principalmente em países como Sri Lank, Tailândia, Laos, Cambodja e Mianmar.
- A Mahayana baseia-se em ensinamentos em sânscrito e é praticada principalmente no Nepal, Japão, Tibete e Korea. Muitas escolas usam mantras e sutras. O Zen tem o foco no zazen, ou shikantaza, apenas sentar, como método para prática. Alguns grupos usam a prática dos koans.
- O Zen teve origem na China e foi levado ao Japão. A escola Soto Zenjaponesa foi fundada por mestre Dogen Zenji no século 13 e posteriormente expandida por Mestre Keizan, no século 14.
- Os monges Theravada usam vestes alaranjadas e são, praticamente, apenas homens, As mulheres não têm equidade e, no máximo, são autorizadas a vestir hábitos brancos, consideradas renunciantes, mas não monjas. Os monásticos Theravada não podem casar-se e têm o celibato como preceito essencial.
- Por ter uma visão mais fundamentalista das regras monásticas, os Theravada enfrentam várias limitações no mundo contemporâneo. Alguns grupos, por exemplo, não podem, por exemplo, usar dinheiro em forma alguma.
- Os monges zen vestem geralmente mantos negros, adotando detalhes em açafrão ou outras cores apenas à medida que vão galgando o caminho. Há mais equidade para as mulheres na vida monástica zen, que podem tornar-se monjas. O casamento é permitido.
- Os monges Theravada fazem apenas duas refeições por dia, uma pela manhã e outra antes do meio dia.
- Monges e monjas zen fazem três refeições diárias, mas o ritual da refeição noturna é diferente por ter sido um costume adicionado na China posteriormente à tradição.
A meditação Samatha, chamada de meditação de concentração, é considerada uma prática introdutória para a meditação Vipassana, ou meditação de insight (percepção de verdades sobre a nossa existência). O objetivo da Samatha é que a pessoa possa perceber “a mente como ela é”, usando a respiração com o âncora para manter o foco. Ao perceber os pensamentos incessantes, a pessoa pode acalmar a mente. Isso é alcançado mantendo uma postura determinada (muito semelhante à do zazen) e realizando exercícios de respiração, por exemplo, pensando em mantras à medida que for inalando e exalando.
A meditação Vipassana é um passo adiante. Em um local silencioso e tranquilo, a pessoa deve sentar-se de pernas cruzadas e com a coluna ereta. De olhos fechados, a pessoa foca a atenção na respiração. à medida que pensamentos surgem, a pessoa deve “etiquetar com verbos” cada um: pensando, ouvindo, vendo. A meditação deve terminar em uma hora, mas a atenção focada pode continuar durante todo o dia. O objetivo final é praticar Samatha e Vipassana em união
Bibliografia
- Imagem da Árvore da Vida, desenho de Charles Darwin (domínio público)Charles Darwin – Wikipédia, a enciclopédia livre
- Shobogenzo, Dogen Zenji – capítulo 33, Arakan
- Buddhismo: Theravada e Mahayana | Centro de Estudos Buddhistas Nalanda
- Escola Soto Zen
- As diversas escolas Budistas – Daissen Ji – PDF
- Theravada Vs Mahayana Buddhism – What Are The Differences?
- A Comparison of Theravada and Zen Buddhist Meditational Methods and Goals- https://www.journals.uchicago.edu/doi/abs/10.1086/462611?journalCode=hr
- Basic points unifying Theravāda and Mahāyāna https://en.wikipedia.org/wiki/Basic_points_unifying_Theravāda_and_Mahāyāna
- Os 3 veículos do Budismo – Theravada, Mahayana e Vajrayana
- Arakan – Mestre Dogen Zenji (1200-1253)
- What Is Vipassana Meditation and How Do You Practice It?
- How to Practice Shamatha Meditation